A estreita faixa de terra localizada na região peninsular do Brasil, entre a Lagoa dos Patos e o Oceano Atlântico é habitat natural de centenas de espécies de pássaros e “pit stop” de outras milhares de aves migratórias na entrada do outono e da primavera.
É ali, mais precisamente na Lagoa do Peixe, que as migrantes se abastecem antes de prosseguir viagem desde a Terra do Fogo para o Pólo Ártico, onde acontece a jornada anual de acasalamento.
A primavera é a época do retorno. O espetáculo das aves da Lagoa do Peixe pode ser apreciado o ano todo, mas a pequena cidade de Mostardas escolheu outubro para realizar o Festival Brasileiro de Aves Migratórias, que neste ano aconteceu de 15 a 19 de outubro .
“ A época foi escolhida em função de no dia 5 de outubro se comemorar o Dia Mundial das Aves. A idéia é promover a cultura de observação de aves”, justifica o biólogo Márcio Efe, um dos idealizadores do festival, que já está na oitava edição.
A Lagoa do Peixe abriga cerca de 180 espécies de aves, entre migrantes e locais. São mais de 10 espécies só de maçaricos migratórios, além de cisne do pescoço preto e flamingo chileno. Conforme o biólogo, o Brasil é o segundo país em maior número de espécies de aves do mundo – só perde para a Colômbia -, mas ainda não tem tradição na prática de observação de pássaros.
Mundialmente, o “birdwatching” já se destaca como um dos principais braços do ecoturismo. Em Mostardas, a 200 quilômetros ao sul de Porto Alegre, o turismo recém começa a ganhar asas.
Uma universidade gaúcha fez um curso de extensão em turismo na região e está formando a primeira turma de 40 alunos. Os alunos se aventuraram no mapeamento de novas possibilidades de turismo e já produziram um vídeo e um livro sobre o tema e introduziram na comunidade os conceitos de turismo sustentável.
Com isto, semearam junto às comunidades de Mostardas e da vizinha Tavares a percepção de novas oportunidades para o desenvolvimento sócio-econômico-cultural da região, antes limitadas pelo próprio Parque Nacional da Lagoa do Peixe.
O parque foi visto historicamente como uma obstrução ao desenvolvimento. Criado em 1986 abrangendo uma área de 34,4 hectares e mais 10 km de entorno, o parque restringiu as atividades da região sem oferecer retorno objetivo para os moradores locais.
A área foi toda desapropriada, mas apenas 10% dos proprietários foram indenizados e os demais oficialmente impedidos de desenvolver as atividades econômicas tradicionais de pesca, criação de gado e do cultivo de arroz.
Com a descoberta de que o turismo também pode significar uma forma de desenvolvimento sem maiores impactos, a comunidade se mobiliza e se redescobre. O gracioso conjunto de casas açorianas do início do século XIX no centro da cidade passa a ser considerado atração turística, bem como a produção de cobertores de lã em teares recebe o status de expressão cultural.
O artesanato começa a se manifestar em novas formas de expressão. As aves observadas e estudadas tecnicamente durante os cursos promovidos pelo festival que atraem biólogos de todo o estado, ganharam o olhar atento de um morador local , que converteu sua própria observação no trabalho de reproduzir miniaturas de pássaros.
A perfeição do trabalho de Eloir Silva é comemorada por museus de vários países, para onde ele exporta cerca de 160 peças por ano. As réplicas fiéis das aves de Mostardas estão presentes no Centro de Estudos de Aves Migratórias do Canadá e em museus da Inglaterra e do Brasil. A técnica inclui esculturas em madeiras exóticas combinadas com bambu e uma mistura de pó-de-madeira e cola.
A comunidade de Mostardas já começa a discutir a criação de uma associação de guias restrita aos moradores efetivos da região para visitação ao Parque Nacional da Lagoa do Peixe e está atenta para a exploração de outras possibilidades de turismo como o convívio com a cultura gaúcha e a visitação aos quatro faróis na região.
À parte de atrações ambientais, a pequena cidade em si já vale a pena conhecer. Isolada durante anos pelo difícil acesso via RST 101, antigamente conhecida como Estrada do Inferno, e mesmo hoje com asfalto em más condições, Mostardas acabou lucrando em qualidade de vida.
Em 2008, a cidade de 11,6 mil habitantes não expressa grandes desigualdades sociais e ainda conserva o espírito de um povo acolhedor, onde as crianças brincam na praça mesmo à noite e na qual se pode circular a qualquer hora em segurança.
Por vezes tem-se a impressão de que o tempo parou. Sensação confirmada pelas várias lojas da cidade onde “conserta-se relógios”, atividade quase inconcebível em realidades urbanas conturbadas e pouco sustentáveis.
Por Vera Damian, especial para a EcoAgencia. A autora viajou a convite da organização do Festival Brasileiro de Aves Migratórias. Fotos Fernando Oliveira. veradamian@ecoagencia.com.br
4 comentários:
Excelente matéria. Retrata a realidade de Mostardas, porém o desenvolvimento só será possível com "alavanca" do poder público com trabalho e concientização da comunidade acreditando que Mostardas pode ser diferente.
Mostardas ainda é uma região meio inatingível ao homem, como há poucas em todo o Estado. O turismo deve ser feito de tal forma que conserve o ambiente natural. Esse é o problema.
João Batista
É com muito orgulho que venho a declar que esta pessoa maravilhosa que é a Vera Damian, e tive a honrra de conhece-la, veio visitar a nossa humilde cidade, e tenha levado consigo essa belissa imagem que
é Mostardas, observando o que temos de mais belo e maravilhoso, inglobando toda a nossa diversidade, que ha no municipio e valorizando todo um trabalho realizado em equipe, pelos alunos da Ulbra-Torres e apoiadores.
Rosemar Vilanova Libano
Excelente a matéria da Vera Damian, retratando com fidelidade alguns aspectos deste município inserido na exclusiva península do Rio Grande do Sul. O problema, porém, é que, aparentemente, ao Turismo está sendo atribuída uma responsabilidade que não pode arcar, pelo menos não a curto prazo: a de sustentar uma comunidade de quase 12.000 habitantes.
Graziela
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