sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A vida moderna e seus venenos obrigatórios (IV)

Por Najar Tubino

Este é o texto de encerramento da série. Para falar a verdade me sinto totalmente envenenado, depois de três meses e meio, estudando o assunto. Não é trocadilho, é a realidade. Não há como aprofundar uma questão como a dos químicos, segundo as suas várias facetas, e simplesmente sair ileso.

É um fato consumado, poderíamos dizer, porque sem eles, a sociedade atual, não sobreviveria.

Isso é uma falsa verdade, assim como era extremamente sólida a economia dos países ricos. Que agora é definida por uma nova gíria de mercado: derretimento. As ações, os derivativos, os papéis podres derreteram, levando com eles, bancos até então sólidos como diamante, o mais forte dos minerais.

Metamorfose ambulante

Durante décadas a indústria química se metamorfoseou, para usar um termo complicado, mas continua sempre na ponta da linha, puxando a sociedade industrial. Agora, movida a tecnologia. A última delas, descoberta ainda na década de 1980, a transgenia. Começaram a usar genes e grupos de genes de diferentes organismos, na produção de novas sementes de soja, milho, algodão, colza, entre outras. São quase 200 novos produtos transgênicos.

A maioria deles patenteados por um grupo de seis empresas transnacionais: Syngenta(Suíça), Bayer Cropscience, depois de comprar a Aventis(Alemanha), Monsanto(EUA), Dupont(EUA), Basf(Alemanha) e Dow Chemical(EUA). Elas detêm mais de 90% do mercado de sementes transgênicas e quase a metade da comercialização das sementes convencionais.

Domínio

Por que a indústria química resolveu entrar no mercado de sementes, que representa uma fatia de 30 bilhões de dólares, no mundo? Por um motivo simples: junto com a semente, eles vendem o produto químico, usado no cultivo. A planta é resistente ao herbicida, conhecido no mercado como glifosato.

Sua patente expirou em 2000, como afirmam Antônio Inácio Andrioli e Richard Fuchs, no livro “Transgênicos: as sementes do mal”. Ele foi sintetizado a primeira vez em 1974. Portanto, a Monsanto, criada em 190l e com um histórico horroroso na história do planeta, precisava compensar a perda nas vendas. A empresa domina o mercado de sementes transgênicas, desde a introdução no ano de 1994, nos Estados Unidos.

Realidade é outra

No Brasil, oficialmente a soja começou a ser plantada em 2005. Muitos anos antes, os produtores começaram a trazer a semente contrabandeada da Argentina, país que liberou a entrada dos transgênicos na década de 1990. O argumento básico da transgenia era redução de custos e diminuição no uso de agrotóxicos.

Quase 15 anos depois, existem várias pesquisas nos Estados Unidos desmentindo esta realidade: a soja, por exemplo, que ocupa o maior espaço nos cultivos, não produz mais do que a convencional, e o glifosato, cada vez mais precisa ser usado com maior intensidade.

Outra coisa: já existem três plantas, consideradas inços, ervas daninhas, que se tornaram resistentes ao veneno, no Cone Sul – a corda de viola(Ipomea purpúrea), o amendoim bravo(Euphorbia heterophylla) e a estrela africana(Cynodon plectostachys).

Glifosato é mistura

Além do glifosato ser a causa de intoxicações e mortes no Brasil, conforme apresentado nas pesquisas do Paraná e no próprio Sistema Nacional de Informações Toxicológicas, da Fiocruz, ele é um composto, ou seja, uma mistura. Na sua composição entra o sal de isopropilamina, polioxietileno-amina e água.

Interessante que os primeiros relatos científicos, ou encomendados, sobre o glifosato, consideraram-no um produto de baixa toxicidade, inclusive na classificação do Ministério da Saúde. Porém, sempre compararam em laboratório o glifosato puro, sem os outros componentes. O POEA(polioxietileno-amina) é responsável pelo efeito surfatante, explica o pesquisador Antônio Andrioli:

-É o efeito que provoca a redução da tensão superficial para que o agente do herbicida possa melhor penetrar no tecido da planta”, registrou ele no livro “Transgênicos, as Sementes do Mal”.
É considerado cancerígeno

Rótulo obrigatório

O uso de transgênicos tem um problema maior, que a indústria química não conseguiu vencer, apesar de todas as campanhas publicitárias, de todas os financiamentos de pesquisas favoráveis, de toda a campanha política – a rejeição por parte dos consumidores.

Recentemente, uma pesquisa realizada em 196 países, sobre produtos de alto risco, apontou os transgênicos na cabeça. Por isso mesmo, embora seja obrigatório por lei – decreto presidencial nº 4.680, de abril de 2003 -,todo produto que apresentar 1% de transgenia na sua composição, tem que ter o rótulo. É um triângulo amarelo, com um T escrito em preto.

Segunda Geração

Na Europa e nos Estados Unidos existem campanhas organizadas para retirar os transgênicos de circulação. No ano passado, o Instituto por uma Tecnologia Responsável(ITR), conforme o diretor Geffrey Smith, iniciou a batalha de retirar os transgênicos das lojas de produtos biológicos.

Na Europa quase 200 regiões se declararam zona livre de transgênicos. Entretanto, a indústria química não dá trégua e se prepara: vai lançar a segunda geração de plantas transgênicas, incluirão a cana-de-açúcar e o eucalipto.

Eucalipto prá etanol

No Brasil a Votorantim, através da Allelyx, empresa de biotecnologia, se associou a Monsanto e diz que em 2009, lançará a primeira variedade de cana-de-açúcar transgênica. A mesma empresa pesquisa o eucalipto, e conta com 12 campos experimentais em São Paulo. Na China e também nos Estados Unidos existem plantios comerciais de eucalipto transgênico – tem mais celulose e menos lignina, substância que dá resistência à madeira. A indústria pretende entrar no mercado de produção de álcool combustível. Conta ainda com uma tecnologia que está na fase experimental.

Sobre o eucalipto transgênico, uma entidade chamada de Projeto Ecológico para Justiça Global(GJEP), dos Estados Unidos, fez uma denúncia séria publicada na revista The Ecologist, produzida na Espanha. Segundo Ann Petermann, dirigente da GJEP a planta citada armazena um mortífero patógeno – Cryptococus gatii -, provoca a meningite mortal micótica. A doença foi registrada no Alabama, na British Columbia, no Canadá e em outros lugares do noroeste norte-americano.

O diretor do Centro de Patogêneses Microbiana, do Hospital Clinico da Universidade de Duke, da Carolina do Norte, Joseph Heitman, especialista em Cryptococus, disse que os caos aumentaram na região, onde o eucalipto se expandiu. Confirmou que o patógeno humano da meningite micótica se aloja no eucalipto.

Redução no Cerrado

Independente disso, no Brasil, um grupo de produtores de soja das regiões oeste e noroeste do Mato Grosso, maior produtor do país, reduziu as áreas de soja transgênica. Por dois motivos: o litro do glifosato aumentou 70% este ano. E as empresas exportadoras, que dominam o comércio e a exportação –Cargill e Amaggi , do governador do estado Blairo Maggi -,vendem o grão convencional aos europeus.

É um nicho de mercado, como dizem eles, vale 240 milhões de dólares a mais, porque os europeus pagam de 60 a 80 dólares por tonelada – passam mais de 3 milhões de toneladas nesse roteiro –não contenha transgênico.

A soja destas regiões é transportada de caminhão até Porto Velho(RO), e de balsa, via rio Madeira, chega ao porto de Itacoatiara(AM), onde a empresa do governador tem um terminal. Ou vai até Santarém(PA), onde a Cargill montou um armazém com capacidade de estocar 300 mil toneladas de soja, em plena floresta amazônica. Deu um pontapé gigantesco na introdução da leguminosa na região.

Palestra

Finalmente chegamos ao fim. Que, logicamente não terminará aqui. No dia 10 de novembro participarei da abertura da 2ª Reunião de Estudos Ambientais, que a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, realizará no Instituto de Pesquisas Hidráulicas, nos dias 10 e 11, n o campus Vale. Foi um convite dos professores Cristiano Poleto e André Silveira. Estarei lá às 9 horas, tentando desintoxicar um pouco.

- O autor é jornalista no Rio Grande do Sul e palestrante sobre meio ambiente. najartubino@yahoo.com.br

Nenhum comentário: