
Por Najar Tubino*
As plantas estão no planeta há 400 milhões de anos. Registros fósseis apontam para a fragilidade original – eram algas, viviam no mar. Criaram a capacidade de transformar gases em alimento, usando a luz solar. Formaram carapaças como os antigos animais marinhos. E multiplicaram as espécies – pelo menos 250 mil conhecidas. O Brasil detém 22% dessa biblioteca mundial. Passei dois dias raciocinando sobre estas raízes.
Que na verdade, se alastram pelo solo, multiplicando microorganismos, bactérias, fungos, capazes de produzir e de decompor tanto materiais orgânicos, como minerais. Uma descendente indígena, mistura genética de bascos espanhóis e portugueses, incorporada hoje na professora, Ingrid Bergman de Barros, do curso de Agronomia da UFGRS, 28 anos convivendo com as plantas, inspirou a reação.
O local: Rincão Gaia, onde está enraizado o legado Lutzenberger, no município de Pantano Grande, a 130 Km de Porto Alegre. O argumento: uma oficina sobre plantas medicinais, aromáticas e ornamentais. Praticada no campo, que está inserido no bioma pampa, nosso tradicional ambiente, agora, às vésperas de um ataque frontal. Na Br-290, ao sair do preservado Rincão Gaia, temos o contraste, com os maciços de eucalipto, ocupando as coxilhas.
Coletando no campo
Lembrei do exército romano, àquela formação compacta que avançava contra o inimigo, forrada de armaduras de metal. Mas é a realidade, com tendência programada de piorar. Por isso, a importância de reunir pessoas de diferentes áreas do conhecimento, interessadas e com vontade de entender os mecanismos da natureza. No caso da oficina, eram 25. Passaram dois dias recebendo uma quantidade enorme de informação da professora Ingrid, também se divertindo, fazendo travesseiros de ervas, ou andando pelo campo coletando espécies nativas ou adaptadas à região.
Primeiro esclarecimento: para conhecer é preciso tocar, cheirar, sentir a planta, depois, vem o conhecimento científico, popular, a utilidade, os perigos, as dosagens, a multiplicação. Um universo amplo, ao mesmo tempo, simples e poderoso.
Participação diversa
Quem se interessa por plantas? Muita gente. Imagino um movimento mundial, silencioso, porém, muito organizado. Pessoas de vários povos, línguas e culturas diferentes observando plantas, coletando informações, sentindo a importância da preservação das espécies nativas. No caso da oficina em questão vou listar, os participantes, e dar uma idéia:
- Dona Ida, aposentada, na faixa dos 70 anos, o que mais faz na vida é plantar. Planto qualquer coisa, dizia ela. No campo, mostrou seu conhecimento.
- Cleusa, técnica em agropecuária, estuda na Escola Técnica de Cachoeirinha, e participa de um projeto com plantas na própria escola.
- Leonel, dono de um sítio, o enciclopedista, levou uma coleção de livros para troca de informações.
- Cecília e Simone, duas artistas, a primeira trabalha com escultura em barro, e a outra, com pintura.
- Iara, a química, especializada em orgânica.
- Laurie, geógrafa participa de projeto na FEPAM, levou a irmã, estudante secundarista, Luzie, de 16 anos.
- O casal Edison, agrônomo aposentado, e Nelci, já avançados conhecedores de plantas.
- Outro casal, Vitor Hugo e Marli, aposentados assumidos, querendo aprender algo diferente.
- Erica, estudante de ciências sociais da UFRGS; Sabrina, estudante de Medicina; Mônica, trabalha no projeto Maquiné Bioativo (região da Mata Atlântica),.
- Fernanda, psicóloga, e a irmã Amanda.
- Rodrigo e Alessandra, arquitetos, a procura de novas formas.
- Dantas, o advogado, falante, como não poderia deixar de ser, morou em Sinop, no norte do Mato Grosso, acompanhou a devastação ao vivo, sem poder denunciar.
- Heide, aposentada, de Gramado, e a filha Martina, médica em Nova Petrópolis, trabalha num posto da rede municipal.
- O monitoramento, sempre presente nos cursos do Rincão, tem a finalidade de explicar a formação, e o conteúdo da propriedade e a função da Fundação Gaia. Neste caso, foi da bióloga Maria de Fátima.
- Lucy, trabalha na parte administrativa e financeira, da entidade, e a Lucimara, bióloga e agrônoma, moradora de Pantano Grande, a partir desse mês, trabalhando na administração do Rincão.
Resgate do espinilho
Um pouco longa a descrição. A idéia é essa. Todo mundo querendo saber as plantas, que ajudam no tratamento de doenças, os óleos aromáticos, que ajudam a cultivar o espírito e a alma, também faz parte das doenças do corpo. Além da beleza, das ornamentais, também ajudam na composição da vida. Ninguém recomendaria um tratamento terapêutico em um bloco de cimento, cercado por uma plantação de soja ou de eucalipto. Principalmente: a importância das espécies nativas. As vezes, minúsculas, quase eram pisoteadas, não fosse a precisão da professora Ingrid.
Momento especial: a descoberta do espinilho (foto), uma leguminosa, muito conhecida na fronteira oeste – pelos mais velhos – parecida com o maricá, muito comum por anunciar a chegada do inverno, com suas flores brancas. O espinilho é amarelo, agora estava cobertode amarelo. Dantas, o advogado, ainda se redimiu – natural de Passo Fundo, lembrou do costume de usar a madeira – muito resistente – para produzir as brasas do churrasco. É uma das nativas com sério risco de extinção. Foi reverenciada pelo grupo.
Use com cuidado
Trabalhar com plantas na atualidade já é um grande negócio, tal a gama de produtos no mercado mundial: do tratamento médico – produto que precisa ser registrado, com responsável definido - aos óleos essenciais, utilizados na harmonização de ambientes, como aconteceu recentemente no Fashion Week, em São Paulo.
A Natura criou um perfume usado na feira, que está no mercado. São temperos, ervas de chá, usadas como remédio – a professora Ingrid insistiu na definição, - por indicação popular e científica.
Plantas que são tóxicas, como o “bálsamo alemão”, cujo, látex é usado sem controle no tratamento do câncer, sem ainda ter comprovação científica. È um perigo. Ou o caso do boldo , não tão perigoso, mas pode causar problema se tomado seguidamente. O boldo chileno, dos Andes, é o único que produz uma substância chamada “boldina”, ajuda a resolver problemas no fígado. O boldo de folha larga, aveludada, muito popular, é útil, mas aperte uma folha e coloque na água fria. Não ferva.
A professora Ingrid, quando iniciou a sua caminhada na Faculdade de Agronomia, da UFRGS, chegava em sua sala e sempre encontrava uma vassoura atravessada na porta. Uma, duas, três vezes. Aí se deu conta, havia outro significado. Isso foi há muitos anos, mas mostra o preconceito, mesmo dentro de uma universidade. Ela pegou a vassoura, o símbolo das bruxas, e pregou na porta da sala. Misteriosamente, a vassoura sumiu. Foi roubada. O trabalho continuou e faz parte do movimento silencioso, anônimo, mundial, pela preservação das plantas e da vida.
*O autor é jornalista palestrante sobre meio ambiente no Rio Grande do Sul. Foto: Espinilho/Arquivo Pessoal(NT).
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