terça-feira, 23 de setembro de 2008

Há muito em jogo

Por Hernán Sorhuet Gelós

Saber mais implica tomar maior consciência de quanto ignoramos. É o paradoxo que acompanha o intelecto humano. Quanto tem aumentado nosso conhecimento da realidade que nos rodeia. Sabemos que somos parte indissolúvel do ambiente, e também que sua estrutura e funcionamento seguem determinadas leis e regras.

A deterioração da diversidade biológica e a extinção de espécies deixaram de ser conseqüências aceitáveis do aumento da população humana e o desenvolvimento, para transformarem-se em uma preocupação real vinculada estreitamente à sobrevivência da humanidade. Mas, como todo processo que se dá com certo gradualismo, tende a anestesiar nossa consciência e a limitar nossa capacidade de reação.

Uma pergunta que surge uma e outra vez, é porque é importante evitar o desaparecimento de espécies. De fato, é um fenômenos que tem ocorrido sempre... e o mundo tem continuado e continua.

Em primeiro lugar, é preciso dizer que as ações humanas têm acelerado de maneira alarmante o processo de extinção, fundamentalmente pela alteração dos ecossistemas através da aplicação de tecnologias de alto impacto ecológico (urbanização, desmatamento, drenagem de banhados, sobreexploração de recursos da fauna), e de processos altamente contaminantes.

Em segundo lugar, o empobrecimento da diversidade biológica implica problemas práticos, éticos e até estéticos. Quando provocamos a diminuição de populações silvestres de animais e plantas, ou a extinção de espécies, estamos deteriorando o ecossistema. Um sistema do qual dependemos de maneira direta ou indireta. Em outras palavras, é como se tirássemos algumas peças de um automóvel. Sem elas, talvez siga funcionando, mas é evidente que já não cumprirá todas as funções que tinha quando foi fabricado. Continuando esse processo, chegará um momento em que deixará de funcionar.

Ao mesmo tempo estamos perdendo informação. O que isso significa? Significa que por insignificante ou desagradável que pareça uma espécie, é possível que contenha em seus gens, em seus componentes, informação muito valiosa.

Cada espécie constitui uma reserva genética única e irrepetível. Pode conter a informação necessária para solucionar um problema importante, como por exemplo ter um princípio ativo que cure uma enfermidade. Abundam os exemplos em farmacologia, ainda que saibamos que recém descobrimos uma ínfima parte de todo o tesouro que esconde a natureza.

Do ponto de vista ético, é evidente que como seres vivos valorizamos a vida como um bem em si mesmo. Portanto, a conservação das espécies é um princípio ético importante a respeitar.

Quanto à estética, a sensibilidade humana admira, desfruta e necessita da beleza da natureza para alcançar significativos níveis de prazer e paz espiritual. Não é um tema menor a discussão sobre conservação, pois sua presença sem dúvida complementa o desenvolvimento e a estabilidade do indivíduo.

A conclusão é inquietante. Se são tantos os valores em jogo, o saldo final da conduta atual dos seres humanos, em matéria de extinção e degradação ambiental, marcará quais são nossas próprias possibilidades de sobrevivência.

*O autor é jornalista no Uruguai, onde escreve sobre meio ambiente para o El País, de Montevidéo. Tradução de Ulisses A. Nenê. Reprodução autorizada, citando-se a fonte.

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