sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A vida moderna e seus venenos obrigatórios (II)

Por Najar Tubino*

Até o final da Guerra do Vietnã, foram jogados 50 milhões de litros de DDT , das mais diversas formas, incluindo fumigadores manuais. Mesmo tipo de equipamento usado pelos funcionários da Superintendência de Combate a Malária, na Amazônia, onde nos últimos anos, despejaram 3 toneladas do veneno.

O mundo registra anualmente um milhão de mortes por malária. Quer dizer, os mosquitos se tornaram resistentes. Em 2005, um Tribunal Federal nos Estados Unidos, negou o pedido de indenização da Federação Vietnamita das Vítimas do Agente Laranja – os contaminados formam um exército de 650 mil a 4 milhões de pessoas.

Embora a indústria química já tivesse pago 180 milhões de dólares a 15 mil veteranos. Cujos filhos nasceram com braços e pernas mal formados, e muitos morreram em conseqüência de câncer, de vários tipos.

Os funcionários da Sucam ainda lutam na justiça contra o governo federal pedindo indenização. A história dos químicos sintéticos no mundo, desde a década de 1980, quando os países industrializados proibiram o uso das substâncias comprovadamente cancerígenas não para de colecionar denúncias de danos ao corpo humano e ao restante da vida natural.

Cobaias grávidas

Mas foram necessárias mais de três décadas, para que as denúncias surtissem efeitos. O ano de 1938 é definitivo: a descoberta do DDT, pelo cientista Paul Muller, prêmio Nobel da Medicina (1948), e a descoberta da síntese do primeiro hormônio em laboratório, realizada pelo pesquisador inglês Edward Dodds, depois transformado em cavaleiro do rei. Ele descobriu o DES (Dietilestilbestrol) .

O DDT surgiu como o pesticida milagroso, era usado até para combater traça nas roupas . O DES, indicado para combater problemas na gravidez (aborto), passou a ser receitado de forma generalizada. Foi a maior experiência em massa, que se tem notícia: 5 milhões de mulheres grávidas. A droga maravilhosa também era usada como promotor de crescimento em aves, porcos e bois.

Trio sinistro

A trágica atuação do DES está descrita no livro “O Futuro Roubado”, dos pesquisadores norte-americanos Theo Colborn, Dianne Dumanoski e John Peterson Myers. Lançado nos Estados Unidos em 1996, com prefácio de Al Gore, chegou ao Brasil seis anos depois, com prefácio de José Lutzenberger – acrescentou algumas informações, no final. O livro é considerado uma complementação atualizada do trabalho de Raquel Carson. Ele aborda também os PCBs (bifenilos policlorados), descobertos em 1939.

Este trio sinistro formava as bases da modernidade da época, pós segunda guerra mundial. Os PCBs eram agentes químicos que não pegavam fogo, tinham estabilidade, substituíram os óleos, nos transformadores da rede elétrica. A vida moderna incluía a comodidade da luz elétrica, os eletrodomésticos ( liqüidificadores, geladeiras, aspiradores), e outros confortos.

Em todos os lugares

Em 1962, estourou o escândalo da talidomida, um químico usado como calmante e contra náuseas receitado as grávidas. Foi usado durante 30 anos. Até que os médicos começaram a associar os problemas de mal formação em crianças nascidas, cujas mães, tomaram o remédio. O problema mais comum: atrofia de braços e pernas. Foram registrados oito mil casos de crianças deformadas, em 46 países. Considerado o primeiro baque contra a arrogância da tecnologia e o discurso das drogas maravilhosas. Logo em seguida, em 1966, o cientista sueco Soren Jensen, publicou na revista inglesa “New Scientist”, os resultados da sua pesquisa. Substâncias químicas encontradas em todos os lugares, em aves, no solo, nos mares da Suécia, nos cabelos da sua mulher e da filha recém nascida. Eram os PCBs.

A partir daí, fecharam o cerco. Estes agentes químicos entram na cadeia alimentar e vão aumentando sua concentração minúscula – partes por bilhão. São persistentes, fixam na gordura, e duram décadas. Em 1976, os Estados unidos proibiram a fabricação dos PCBs. Em quase 50 anos de produção, os volumes atingiram 1,5 milhão de toneladas. Os agentes continuaram sendo exportados. E, aqueles, já instalados em transformadores, continuam até hoje. Em 1996, no Rio de Janeiro, alguns transformadores do metrô, foram danificados perto de uma favela. Os moradores quebraram o recipiente e levaram o óleo – conhecido como Ascarel, no Brasil. Usaram como óleo de fritura e também como bronzeador.

Semelhança molecular

Esta não é a pior parte. Os cientistas descobriram que alguns agentes químicos orgânicos sintéticos se parecem com os hormônios naturais, principalmente o estrógeno (feminino) e a testosterona (masculina). A semelhança é molecular: os hormônios tem quatro anéis de carbono, na sua estrutura química. Os agentes, como DDT, por exemplo, têm dois anéis de carbono.

No caso dos PCBs são dois anéis de cloro ligados com dois anéis hexagonais de benzeno – daí o nome bifenilo. Uma família, como registram os químicos, de 209 substâncias. Como inflamáveis protegem madeira, borracha e tornam o plástico estável. Ainda são ingredientes de corantes, vernizes e tintas.

Imitadores de hormônios

Juntamente com as dioxinas, substâncias derivadas da queima de produtos que contém cloro ou carbono – família com 75 agentes -, e os hidrocarbonetos clorados são alteradores de hormônios. No corpo humano, os hormônios funcionam como mensageiros químicos – têm receptores, usam um sistema tipo fechadura e chave. Os químicos sintéticos tem a capacidade de imitar o mensageiro, interferindo na mensagem, produzindo outros resultados. Isso acontece na fase pré-natal de um bebê humano, de uma ave, de um peixe.

Os primeiros resultados registrados pelos cientistas foram os índices de determinados tipos de câncer: de mama, que começou acumular aumento de 1% anual, nos Estados Unidos, depois a Segunda Guerra Mundial, e o de próstata, nos homens. Os dois tipos, estão entre as duas maiores causas de mortes por câncer, nos Estados Unidos. Situação que envolve outros países industrializados.

Começou com corantes

Atualmente, são 51 compostos químicos definidos como alteradores de hormônios. Além dos grupos citados, incluem os alquilfenóis, usados no poliestireno e no polvinil-cloreto (PVC) – deixam o plástico mais estável, menos quebradiço. Também encontrados em detergentes domésticos, nas substâncias conhecidas como polietoxilatos - na década de 1990, os europeus baniram o uso em detergentes domésticos.

A indústria química, que iniciou suas atividades industriais na metade do século XIX (1850), sintetizando corantes têxteis, para roupas e tecidos em geral, explodiu a produção de sintéticos nos anos seguintes. Agentes químicos com base em carbono, avaliava-se, por volta do ano 2000, uma produção acima de 20 milhões de toneladas – são mais de 100 mil agentes químicos sintéticos.

Caso escandaloso

As notícias a respeito das problemas nefastos causados por eles, continuam abastecendo o noticiário mundial e local, diariamente. No Rio Grande do sul, o agrônomo Darci Bergmann, da Associação São-Borjense de Proteção ao Ambiente Natural, denuncia o uso indiscriminado de herbicidas em toda a fronteira oeste. Sintoma mais visível está na morte das árvores centenárias. Entre os herbicidas citado por ele o 2,4-D, um dos componentes do Agente Laranja . Na China, um caso escandaloso, envolvendo 22 indústrias produtoras de leite em pó e produtos lácteos, e a melamina, substância química usada em plásticos, como aderente. Servia para falsificar os índices de proteína. Quatro bebês morreram, 54 mil crianças foram hospitalizadas. Virou escândalo internacional, porque até mesmo a União Européia importava produtos que contém leite – biscoitos, massas, tortas – da China.

*O autor é jornalista no Rio Grande do Sul e palestrante sobre meio ambiente. najartubino@yahoo.com.br

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