No calendário oficial da ONU 23 de agosto é o Dia Internacional da Lembrança do Tráfico de Escravos e de sua Abolição. Para marcar a data e a primeira colheita ecológica dos quilombolas, a Feira dos Agricultores Ecologistas realiza uma Festa Africana a partir das 8h deste sábado.
Um grupo de afro-descendentes de Mostardas, do quilombo Colodianos, lota um ônibus e vêm à Feira dos Agricultores Ecologistas (FAE) para mostrar a importante contribuição dos africanos na formação de alguns hábitos culturais brasileiros.
"Uma comprovação de que devemos nosso arroz com feijão à vinda dos escravos é a existência do nosso cardápio mais típico também em Cuba, Costa Rica, Guiana e Carolina do Sul. Nesses países, como no Brasil, houve a migração forçada pelo tráfico", comenta Nelson Dias Diehl, da banca Nutraceuticos, que fornece insumos da agricultura orgânica aos quilombolas.
Agricultura africana
Para resgatar o trabalho dos seus antepassados, os quilombolas dedicam-se à agricultura utilizando manejo ecológico e as sementes que originalmente vieram nos cabelos das mulheres trazidas nos navios negreiros. Neste ano, o quilombo realizou a primeira colheita para comercialização do arroz africano, Oryza glaberrima, que possui propriedades e características diferentes do asiático, que para muitos é a única espécie de arroz.
Segundo a Embrapa Arroz e Feijão de Goiás, o arroz Oryza glaberrima, originário da África e trazido pelos escravos, apresenta maior valor nutricional quando comparado ao arroz asiático, Oryza sativa.
O arroz vermelho ou quilombola possui 90% a mais de ferro, 30% de zinco e 52% de proteína. Ele também é rico em selênio.
A superioridade nutricional fez com que a prefeitura de Mostardas inserisse o arroz vermelho na merenda das escolas da rede pública, juntamente com o feijão sopinha, outra espécie nativa da África.
"O grão menor, de sabor mais suave e digestão mais rápida, além de cair bem nos dias mais quentes, também serve para como base de pastas para molhos e sanduíches" explica a nutricionista Herta Karp Wiener.
Mistura de riquezas
Uma estreita convivência com o catolicismo fez com que os afro-descendentes incorporassem a seus rituais práticas cristãs. Esta foi a origem de novas manifestações culturais como o Terno de Reis, típico da época natalina, e o ensaio de pagação de promessas.
Atração inédita da festa africana deste sábado, seis cantores do quilombo de Mostarda vão apresentar partes de um Terno de Reis. A apresentação ocorre em duas edições às 9h com o Canto de Chegada e às 11h com a despedida.
Às 10h, os tambores e o canto se fazem presentes no Ensaio de Pagação de Promessas, que acontece ao lado do caldo-de-cana, na parte central da primeira quadra da José Bonifácio.
Após as apresentações, alguns quilombolas fazem um depoimento sobre as práticas culturais que ainda persistem de geração em geração e também sobre o manejo de solo para a produção agrícola, a partir da biomineralização.
O solo de Mostardas não está entre os mais ricos devido à sua origem. "A formação do continente onde está localizado o município de Mostardas é bastante recente se comparada a outros locais. O cordão litorâneo gaúcho, com lagoas e dunas, formou-se a partir da areia depositada e fixada graças à elevação e ao rebaixamento do nível do mar", explica a geógrafa Cláudia Dreier. Tais características criam um tendência de solo raso e pouco fértil, sendo indispensável um tratamento especial que tornem essa terra produtiva.
Evento: Festa Africana
Atrações: 8h degustação de arroz quilombola com leite de côco
9h Terno de Reis: Canto de Chegada
10h Ensaio de Pagação de Promessa: Canto e tambores
11h Terno de Reis: Despedida
12h Depoimento de agricultores quilombolas
Data: 23 de agosto - Dia Internacional da ONU em lembrança do tráfico de escravos e de sua abolição.
Local: Feira dos Agricultores Ecologistas - primeira quadra da José Bonifácio - Porto Alegre
Por Cláudia Dreier, jornalista. Reprodução autorizada, citando-se a fonte.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário