sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Em terra de cego filho pródigo é rei

*Por Najar Tubino

Nada como ter um pai genial. Um pai estratégico, ex-ministro de minas e energia, especialista em minérios, como é o caso do fundador da Companhia Vale do Rio Doce, Eliezer Batista. Considerado uma das maiores autoridades, quando o assunto é exploração mineral. Seu filho, Eike Batista, controlador do grupo EBX, muito famoso por ser o ex-marido da atriz e modelo Luma de Oliveira – àquela da coleira no pescoço, no sambódromo. Ele se considera o homem mais rico do Brasil, com uma fortuna de l7 bilhões de reais – a revista americana Forbes o coloca em terceiro lugar.

Eike é o filho pródigo, ou um homem que fez fortuna à sobra do estado, como denunciou a revista Carta Capital, na última edição de julho. Controla jazidas de minério de ferro, ouro, ferrovias, comprou áreas de exploração de petróleo- arrecadando na Bovespa 6,7 bilhões de reais -, constrói usinas térmicas, trabalha com carvão, exploração de água, manejo de florestas e tem até uma empresa de entretenimento, incluindo um restaurante e um navio turístico.

Ultimamente, ficou mais conhecido pela operação Toque de Midas, que a Polícia Federal realizou no Amapá, em consequência de falcatruas na licitação de uma ferrovia, ligando Porto de Santana, na embocadura do rio Amazonas – saída para o oceano Atlântico – a Serra do Navio, no centro do estado.

Acertando o furo

A ferrovia é estratégica para o grupo de Eike Batista, porque ele mantém um contrato com a mineradora Anglo American no valor de 5,5 bilhões de dólares, correspondendo a compra de jazidas de ferro no Amapá e em Minas Gerais, além de ferrovias e portos, necessários ao escoamento. Um negócio futuro, como é de costume do filho pródigo. Acerta no mapa, no local exato das jazidas, e depois vende no mercado.

O último lance, na área do petróleo, é exemplar: montou a empresa OGX, e adquiriu no leilão da Agência Nacional de Petróleo 21 blocos de exploração, pagando 1,5 bilhão de reais. Com um detalhe: sem ter a garantia da existência do tão cobiçado óleo. Entretanto, o filho pródigo contratou o ex-presidente do Banco Central e do BNDES, Francisco Gros, Luiz Rodolfo Landim, executivo com passagens na Petrobras, Eletrobras e Furnas e, principalmente, Paulo Mendonça, gerente de exploração e produção da Petrobras, durante 34 anos. Dessa forma, não será muito difícil acertar o furo do poço.

O Brasil, no mês de julho, assistiu as peripécias de dois gênios financeiros e, por consequência, bilionários: Daniel Dantas e Eike Batista. Dantas, não tinha um pai estrategista, mas arrumou o ninho no antigo PFL, depois mudou para o ninho tucano e tentou se encostar no poder atual. Fez uma carreira meteórica, arrumou encrenca com o City Group, com os italianos da Telecom, contratou a empresa Kroll, especialista na vida alheia e por aí vai.

Privado e público

Agora resolveu sair da telefonia, vendendo a sua parte da Brasil Telecom, na megafusão com a Oi. Um negócio que renderá 1 bilhão de reais. Tudo corria dentro da normalidade, conforme o mundo econômico brasileiro, e suas associações governamentais e políticas – sempre incluindo um senador aqui outro ali -, até a operação indiana da PF. O problema é que os gênios também resolveram entrar na área ambiental.

Dantas com seus mais de 500 mil hectares no Pará, envolvendo terras públicas, indígenas, e outras coisas mais, além de 130 pedidos de lavra. Um repórter do jornal O Globo, Henrique Gomes Batista, esteve na região de Eldorado dos Carajás, Xinguara, ou seja, o sul e o sudeste do estado, onde existem 80 mil sem - terras – e onde ocorreu o massacre dos 19 em Eldorado. Constatou outro problema. O plantio de cana-de-açúcar, sem autorização. Aliás, autorização legal, é a última iniciativa, que se toma no Pará.

O governo paraense diz que Dantas deu um prejuízo de 500 milhões de reais ao estado, comprando terras que não deveria. Tem mais: o sobrinho do gênio, Bernardo Rodemburgo, foi flagrado em escutas da PF, vendendo terras a europeus. O sujeito compra um acre (0,4 hectare), paga 250 dólares e ajuda a preservar a Amazônia. Bernardo deve ter puxado o tio, ainda assegurava aos europeus, que o grupo tinha muita terra na Amazônia.

Queimando mata nativa

Já o filho pródigo, que foi corrido da Bolívia, depois da posse de Evo Morales, mudou de lado na fronteira, e transferiu a siderúrgica para Corumbá, no Mato Grosso do Sul, local de jazidas imensas de ferro e manganês. A siderurgia é um ramo básico do capitalismo mundial, porque transforma o ferro em ferro gusa, que é a matéria-prima do aço. E daí sai o sustento de toda a cadeia automobilística. A questão é que eles não querem modernizar, nem investir em tecnologia.
Querem manter fornos a carvão vegetal. Não seria problema, se não fosse carvão vegetal do pantanal. Ou seja, derruba a mata da maior província fluvial do planeta – em 2007 o MS produziu 10 milhões de metros cúbicos de carvão -, e queima na siderúrgica do filho pródigo, e de outros tantos que funcionam da mesma maneira.

Como Eike Batista não joga baixo, criou um outro dilema ambiental em São Paulo. Quer construir um imenso porto, com edificações gigantescas, uma ilha artificial e pontos de atracação, na região de Peruíbe, no litoral paulista. Tem uma aldeia guarani no meio do caminho. O projeto, avaliado em 4 bilhões de reais, também prevê a construção de um complexo industrial, na região da mata atlântica – do litoral em direção à Serra do Mar. Uma nova Cubatão, quem sabe.

O problema é inveja

Os gênios do capitalismo brasileiro vivem dizendo que a inveja é o maior motivo das suas peripécias policiais e judiciais. No Brasil, ninguém pode ganhar muito dinheiro. Deve ser o vício do enriquecimento ilícito, que na realidade é considerado lícito, porque são todos amigos. Políticos, dirigentes de estatais, governantes de plantão e empresários convivem cotidianamente. Assim acontecem os negócios. Tudo legal, para eles. O economista Márcio Pochmann, atual presidente do Instituto de Economia Aplicada (IPEA), diz que no mundo 24% da população concentra 75% da produção, e cerca de 250 mil clãs de famílias (0,2% da população mundial) respondem por mais de 50% da riqueza global. E, 500 corporações transnacionais, têm o domínio de quase todos os setores econômicos.

Os gênios fazem parte desta casta. Inclusive, o filho pródigo, gosta de admirar a sua mercedes de l,2 milhão de dólares, que fica estacionada na sala da sua casa, no Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Ao lado, o motor da lancha “Spirit of. Brazil”, responsável pelo recorde de velocidade, na travessia Rio - São Paulo. Que romântico.

*O autor é jornalista, articulista e palestrante sobre meio ambiente no Rio Grande do Sul. Contatos: (51) 9672 0363 ou najartubino@yahoo.com.br .

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