domingo, 28 de setembro de 2008

A vida moderna e seus venenos obrigatórios

Por Najar Tubino*

Nos últimos três meses, contando a partir de julho, comecei a pesquisar com maior profundidade o uso de substâncias químicas sintéticas na nossa vida. Incluí na lista, os agrotóxicos, os químicos orgânicos persistentes, chamados POPs, e por fim, os transgênicos. Li seis livros, entre eles o clássico “Primavera Silenciosa”, da bióloga norte-americana, Rachel Carson. Publicado em 1962, fez a primeira denúncia mundial, sobre os efeitos danosos destas substâncias à saúde humana, e ao ambiente natural, como um todo. O livro foi editado no Brasil pela Melhoramentos, mas circulou no fatídico 1964, e não resistiu muito. Sumiu do mercado. Consegui uma cópia xerografada.

Não é mera coincidência, que a explosão no uso de agrotóxicos no Brasil, aconteceu na década de 1960, quando os militares assumiram o poder, depois do golpe. Na seqüência, expoentes do regime como o general Golbery do Couto e Silva, considerada a eminência parda, e o próprio ex-presidente Ernesto Geisel, assumiram postos de direção na Dow Química do Brasil, e na Norquisa, sem contar o ex-presidente do Banco do Brasil, Nestor Jost e o próprio Irís Resende, ex-ministro da Agricultura. Na época, com a implantação do sistema de crédito rural, o agricultor ou pecuarista tomava o dinheiro emprestado e, automaticamente, comprava um pacote de agrotóxicos.


Delírio de fomento

Com a ajuda do professor João Roberto Penna F. Guimarães, perito ambiental, titular na Unisantos e em outras universidades, tive acesso a alguns trabalhos científicos, de vários autores, em diferentes regiões do país. Escolhi três específicos no Mato Grosso do Sul, sobre região da grande Dourados, maior área agrícola do MS, no Rio Grande do Sul, municípios de Antônio Prado e Ipê, na serra, região da fruticultura e no Paraná, maior produtor de grãos do país. A idéia é simples: existe um delírio de fomento à produção agrícola no país, incluindo soja, cana-de-açúcar, e os agrocombustíveis.

Se fala muito da balança comercial, das exportações, da renda média, porém muito pouco sobre as milhares de toneladas de agrotóxicos que serão jogadas sobre a terra. Contaminarão produtores, trabalhadores, e consumidores. Depois serão levados pela chuva até os córregos mais próximos e, em seguida, jorrarão nas principais bacias hidrográficas do país. Sem contar os agentes que volatizam, ou seja, evaporam, e vão passando de canto em canto do Brasil. Até se fixar na gordura de um peixe, um mamífero, como o boi, ou um ser humano feminino, que casualmente, poderá estar grávida, e transmitirá o veneno, ao seu filho.

Ninguém está livre

Não há população ou indivíduo neste planeta, que não esteja contaminado por algum tipo de veneno. Seja hidrocarboneto clorado, caso mais conhecido do DDT, ou fosforado, dois grupos que envolvem a classe dos inseticidas, os maiores causadores de intoxicações no Brasil e no mundo. Até mesmo para se pesquisar a extensão e a gravidade do problema da influência dos agentes químicos sintéticos na saúde humana, como responsáveis pelo aumento na incidência do cânceres, ou na desorganização do sistema endócrino – que produz os hormônios - é complicado. Não há comparativos. Nem os esquimós do Ártico, o povo inuit, está livre.

Ao contrário, já foi constatado as altas taxas de contaminação com químicos persistentes. Os organoclorados se fixam na gordura, qualquer espécie de gordura, durante décadas. Desde a sua descoberta, como inseticida, em 1938, até a década de 1970, quando foi proibido nos Estados unidos e demais países industrializados, foram produzidas mais de 3 milhões de toneladas do DDT. Ainda hoje, é utilizado em campanhas contra mosquitos, transmissores da malária, embora a maioria deles tenha adquirido resistência. Por sinal, durante os últimos 50 anos, mais de 400 “pragas”, entre insetos e vegetais, se tornaram resistentes a um grande número de agentes químicos. No Brasil, são 1002 produtos registrados.

Matar gente

Esta viagem macabra começa durante a Segunda Guerra Mundial (1938-1945), quando nazistas procuravam descobrir armas químicas, como o paration, um dos inseticidas organoclorados, e os aliados, revidavam do outro lado. Ou seja, os agrotóxicos surgiram primeiro, para matar gente, não insetos ou “ervas daninhas”. Por isso mesmo, os efeitos nas intoxicações humanas – ou mesmo em animais e insetos – atingem o sistema nervoso, causa convulsões, descoordena o corpo. Sem contar os efeitos, descobertos posteriormente, genéticos (mutações), carcinogênicos (provocar câncer) e teratogênicos – capacidade de produzir monstruosidades. O sistema nervoso humano funciona com transmissores químicos, que passam mensagens de um nervo ao outro. Um determinado transmissor, como a “acetilcolina” cumpre a função e desaparece, rompe a ligação .

Se isso não acontece, o sistema continua acumulando, e entra em colapso. Para isso, o corpo produz uma enzima – a colinesterase -, que elimina o transmissor químico citado. Sem ela, o problema acontece. Os químicos sintéticos interferem nesse processo. Trabalhadores da área agrícola precisam passar por exames de sangue periódicos, e detectar o nível da enzima no sangue. Senão, de uma hora para outra, tem um ataque agudo de intoxicação.

Tentativas de suicídio

No brasil, as notificações de intoxicações por agrotóxicos são reunidas num sistema criado pela Fiocruz – a Fundação Oswaldo Cruz, do Rio de Janeiro – é o Sinitox. Reúne informações de centros toxicológicos organizados em 19 estados – são 33. As notificações são espontâneas, e a Organização Mundial da Saúde considera que a cada caso registrado, outros 50 não são. No período de 1999/2003, num dos trabalhos analisados constam pouco mais de 64 mil casos no país – intoxicações agudas com 1.148 mortes. São 26 mil tentativas de suicídio, e cerca de 934 mortes, como conseqüência. O número é estranho, mas está ligado ao funcionamento do veneno no sistema nervoso. Um dos sintomas é a depressão. Mesmo assim, a maioria dos casos acontece na zona urbana, quando se sabe que a maior quantidade de inseticidas, herbicidas, fungicidas são aplicadas no meio rural.

Nunca mudou

Os inseticidas organoclorados são os maiores causadores de intoxicações. Em segundo lugar estão os herbicidas, com destaque para o glifosato, produto comercial Round-up, da Monsanto, como maior agente. Conseqüência óbvia da disseminação da soja transgênica no Brasil. Um capítulo que ainda vamos engolir nos próximos anos. Uma coisa é certa: depois de 50 anos de pesquisas e estudos, legislações e acordos internacionais sobre restrição ou banimento de alguns agrotóxicos, algo não mudou. A indústria química, que produz matéria-prima para vários setores.

De plásticos, passando por farmácos, tintas e vernizes, subprodutos do petróleo, até os agrotóxicos, e faturou em 2002, 1,5 trilhão de dólares. Pior: a resposta, à quantidade imensa de denúncias de mortes, mutações, doenças provocas pelo uso indiscriminado desses produtos, foi a compra das empresas produtoras de sementes espalhadas pelo mundo. E agora, concentradas na mão de meia dúzia de transnacionais, como Monsanto, Syngenta, Bayer, Basf e outras.

Agente laranja

Elas já anunciaram a nova geração de transgênicos, as sementes BT. O Bacillus Thuringiensis , daí o BT, é uma bactéria que produz substâncias com capacidade de matar insetos. Foi descoberta na província de Turíngia, na Alemanha, em 1911. Atacava as larvas da mariposa da farinha. Rachel Carson escreveu sobre o bacilo em seu livro, porque empresas americanas multiplicaram a produção, empregando o microorganismos de forma generalizada. Agora, um grupo de genes do bacilo está dentro do grão de soja, milho e algodão, as sementes disponíveis no mercado mundial.

A indústria química produziu na década de 1960 alguns herbicidas, usados na Guerra do Vietnã – o 2,4-D e o 2,4,5-T. A composição ficou conhecida como agente laranja – as cores dos tonéis diferenciavam os produtos e as empresas fabricantes. Contaminaram o país inteiro – a idéia era destruir a floresta, que escondia o inimigo. Incluíram os soldados estadunidenses. Na década de 1990, receberam 180 milhões de dólares de indenização da industria química, pelas doenças contraídas nos campos onde borrifavam o veneno. A viagem macabra continuará.

*Jornalista no Rio Grande do Sul e palestrante sobre meio ambiente - najartubino@yahoo.com.br.

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