sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Ricos e doentes

Por Najar Tubino*

É a definição mais simples dos modernos e tecnologicamente incorretos espigões, espalhados pelo mundo.

A Organização Mundial de Saúde registra um índice de 30% das novas edificações, que provocam várias doenças nos seus ocupantes – entre 10% e 30% adoecem. Nos meios acadêmicos estão tratando o problema como a “Síndrome do Edifício Enfermo”.

Na Espanha, o jornalista Miguel Jara escreveu um longo artigo na última edição do The Ecologist, editada em Barcelona. Jara é autor de dois livros onde os problemas da contaminação química estão detalhados – “Traficantes de Salud” e “Conspiraciones Toxicas”, inéditos no Brasil.

Oficialmente o problema veio à tona, depois que um grupo de sindicalistas, representantes de vários grupos empresariais de reconhecido poder econômico e atuação mundial – Telefônica, BBVA, Grupo Gás Natural, Águas de Barcelona, La Caixa e Laboratório Novartis – criaram um comitê de saúde. Eles registraram 700 casos de “Lipoatrofia semicircular” , uma doença degenerativa, que atinge o tecido adiposo (gordura), abaixo da pele, na parte anterior dos músculos.

Casos multiplicados

No primeiro trimestre de 2007, 150 funcionários do Grupo Gás Natural, na recém inaugurada sede em Barcelona, foram diagnosticados com “lipoatrofia semicircular”. Algumas semanas depois, um outro grupo com mais de 60 empregados do escritório da La Caixa, apresentaram a mesma doença. A partir daí os casos se multiplicaram.

O Departamento de Trabalho e Saúde, da administração regional da Catalunha, produziu um documento com um protocolo de atuação, estabelecendo normas, em matéria de condições de trabalho, solicitando o recolhimento de informações sobre a presença de equipamentos amplificadores de telefonia móvel, entre outras instalações – redes de Internet Wi-fi e Wi-Max.

O arquiteto M. Requejo, autor do livro “La casa enferma” , comenta o seguinte:

- A Síndrome do Edifício Enfermo é um termo usado para definir doenças das modernas construções de aço e vidro, todo elétrico”.

È uma conseqüência do uso de materias como amianto, fibra de vidro, plásticos e fibras sintéticas, somando-se à exposição do ruído, vibrações, como as emissões eletromagnéticas ou ionizantes produzidas por linhas de média e baixa tensão, televisão, microondas, fotocopiadoras e ar condicionado.

Resumindo : um ambiente totalmente artificial, recheado de conteúdo químico, elétrico e eletrônico.

Gincana inútil

Cláudio Gómes Terretta, médico e químico, um dos maiores especialista da Espanha na pesquisa das influências dos campos eletromagnéticos nas doenças diagnosticadas em humanos, constatou:

- A exposição a microondas de telefonia móvel, de intensidade muito baixa, aumenta significativa e consideravelmente a ocorrência de fadiga, tendência depressiva, desordens do sono, problemas cardiovasculares, dificuldades de concentração e perda do apetite”.

São os sintomas da Síndrome do Edifício Enfermo.

É sintomática a divulgação deste tipo de informação, no momento em que os veículos do mundo inteiro, anunciam a gincana mercadológica e especulativa, da construção das maiores torres do planeta.

A taça está com um dos sultões de Dubai, onde o espigão mor, conhecido por Burj Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, atingiu 688 metros, no início de setembro.

Ele tem 160 andares, porém, ainda crescerá mais, chegando aos 900 metros, batendo a torre Taipei 101, de Taiwan, e sobrepujando , os espigões da China – o Shangai World Center, recém inaugurado, com 492 metros e 101 andares.

Cidades econômicas

Esta é uma corrida insana. O caso de Dubai é o mais badalado, porque os sultões do países querem dar um ar ocidental as suas realizações. Constroem ilhas artificiais, prédios caríssimos, mudam a legislação interna do país – abrindo as portas aos investidores estrangeiros – principalmente do sudeste asiático.

O problema não é esse. No Golfo Pérsico, onde se concentram países como Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Omã e os Emirados, estão construindo 15 novas cidades. Somente na Arábia Saudita são sete.

A maior delas, logicamente, conhecida como a cidade King Abdullah Economic City, em homenagem ao rei Abdullah, abrangerá uma área de 168 Km² , com um custo estimado em 27 bilhões de dólares.

Situada às margens do Mar Vermelho, próxima à cidade de Djedda, é um porto importante -, a nova cidade contará com porto imenso, terminal de contêineres, uma fundição de alumínio, um terminal de passageiros , com capacidade para acolher 500 mil visitantes, além de dois milhões de moradias – os sauditas recebem anualmente milhões de visitantes muçulmanos, que percorrem a Meca.

Aspirando tudo

Dois detalhes importantes: a maior parte das obras são erguidas em terras tomadas do oceano. O material usado nas construções é aspirado do fundo do mar, além da areia, o que vier junto.

Processo realizado por dragas gigantescas, que já foram utilizadas em Hong Kong e Singapura. Um dos responsáveis pela construção, comentou ao correspondente do Le Monde Diplomatique , no Golfo pérsico, “ a técnica da aspiração não causou maiores danos ao mar”.

As construções árabes ganharam publicidade mundial, como parte das mil e uma noites, da quase moribunda indústria do petróleo.

Vendem luxo e descontração. Recentemente, o Banco Central dos Emirados Árabes Unidos, lançou um comunicado aos bancos “deveriam analisar os créditos imobiliários , limitando a concessão de novos empréstimos”.

Na mesma semana destas notícias, o governo dos Estados Unidos, assumiu o controle das duas maiores instituições credoras de títulos hipotecários – a Fannie Mae e a Freddie Mac -, que juntas reúnem uma conta de 12 trilhões de dólares.

Bush Júnior , no apagar das luzes, deu uma ajudinha de 200 bilhões de dólares. Isso é o que poderíamos chamar de capitalismo sustentável.

*Jornalista e palestrante sobre meio ambiente. najartubino@yahoo.com.br

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