*Editorial do Daily Mirror, do Sri Lanka
A engenharia genética é o maior experimento humano e ecológico da história. A técnica permite que cientistas manipulem genes de qualquer ser vivo de formas como não acontecem na natureza.
As novas biotecnologias que manipulam genes de microrganismos, inclusive vírus e bactérias, peixes, sementes, animais e seres humanos estão imersas em controvérsia e incertezas. Não temos repostas claras para muitas questões.
O que ela significa para a saúde e segurança dos homens, animais e plantas? Como ela afeta a biodiversidade, a segurança alimentar e a integridade ambiental? Como prevenir que o conhecimento científico seja abafado pela avidez do mercado?
Estas são algumas das questões fundamentais que desafiam a sociedade e aqueles que a governam e que, portanto, detêm enorme responsabilidade ao fazerem opções tecnológicas que impactam a vida.
A controvérsia tomou conta dos processos de aprovação, com cientistas alertando para os potenciais danos para a saúde humana que nunca foram devidamente avaliados.
Apesar da limitação da avaliação de risco, o FDA [órgão do governo americano que regulamenta alimentos e medicamentos], ao aprovar o primeiro dos transgênicos, o tomate Flavr Savr [depois retirado do mercado], também decidiu que os demais organismos transgênicos não precisariam passar por avaliações.
Ainda pior, um processo voluntário de consulta substituiu a aprovação formal pelo FDA. A pressão da indústria pela desregulamentação foi exitosa.
Hoje nos Estados Unidos não há rotulagem obrigatória dos alimentos modificados, por mais que mais de 80% da população seja a favor do direito a essa informação.
Em contraste, na União Européia vigora uma rigorosa legislação de biossegurança que exige dos criadores de alimentos transgênicos a apresentação de uma completa avaliação de riscos previamente a qualquer comercialização.
Qualquer aprovação é dada por um período de dez anos e é sujeita a revisão. Lá também é exigida a rotulagem dos alimentos transgênicos.
Atualmente, embora as indústrias biotecnológicas e agrícolas continuem a pressionar agressivamente pela autorização de lavouras e alimentos transgênicos, estão surgindo evidências de riscos e situações não previstas.
As maiores preocupações são em relação aos perigos do arroz transgênico.
O arroz alimenta mais da metade da população do mundo. Na maior parte da Ásia, incluindo o Sri Lanka, o arroz é o alimento básico. A China é o maior produtor e consumidor de arroz.
Mas a descoberta do arroz transgênico, não aprovado para o consumo humano, na província chinesa de Hubei trouxe os piores receios com relação à contaminação da cadeia alimentícia.
O governo chinês não autorizou o plantio comercial de arroz transgênico. Foram permitidos apenas testes de campo com variedades tolerantes a herbicidas ou que produzem endotoxinas para matar insetos e pragas.
Mesmo assim, houve casos de contaminação do arroz chinês e de produtos alimentícios à venda no mercado pelas variedades não autorizadas de arroz transgênico. Isto levou a União Européia a tomar medidas para lidar com estes produtos não aprovados, por exemplo testando produtos e retirando das prateleiras produtos contaminados.
Uma pesquisa conduzida por cientistas chineses mostra que existem riscos ambientais como o fluxo de genes do arroz transgênico para plantas invasoras nativas parentes do arroz, o que pode afetar a população de arroz selvagem, que é uma invasora problemática.
Estas plantas invasoras representam uma ameaça ambiental e controlá-las será um problema de grande magnitude que os rizicultores terão que enfrentar.
Atualmente o arroz transgênico não é cultivado comercialmente em nenhuma parte do mundo, embora os EUA já tenham aprovado dois tipos de arroz transgênico resistente a herbicidas.
Parece que a pesquisa sobre o arroz transgênico até agora passou longe das considerações sobre segurança. Contra este pano de fundo, muitos países em desenvolvimento, incluindo o Sri Lanka, estão sendo iludidos por ambições de um futuro biotecnológico.
Mas estes países não têm a capacidade de investigar profundamente estas novas tecnologias e de monitorar as plantas e outros organismos transgênicos no meio ambiente e na cadeia alimentar.
Por estes motivos, autoridades como o Representante Regional da FAO (órgão das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) para a Ásia e Pacífico em 2004 recomendaram aos governos asiáticos que ajam com cautela ao avaliar a aprovação de alimentos transgênicos.
*Distribuído pelo boletim da Campanha Brasil Livre de Transgênicos. Texto original em inglês Hazards of Genetic Engineering
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